Atravessei rapidamente o corredor principal até o elevador - "Creio que poucos usuários tenham percebido que a rede caiu, mas duvido que os desenvolvedores já não estejam querendo meu cérebro em um vidro de conservas.." - disse para sí mesmo enquanto a porta abria.
"Ótimo! Sem horário, sem temperatura, sem música no elevador!" - exclama olhando-se no espelho após apertar o botão S3, que o levará diretamente ao saguão dos servidores, local onde esteve apenas duas vezes, uma, quando contradado - foi feito um 'tour' pelas dependências da empresa -, outra quando resolveu 'checar' o sistema de refrigeração com uma das delícias da faculdade. "Nossa, estou horrível.." -, a barba já cumprida denunciava meses de negligência, a roupa amarrotada, a gravata frouxa e os óculos ensebados - "Isso é o que dá trabalhar sem contato humano.." - murmura enquanto tenta ajeitar a gravata.
O elevador então para, a porta se abre, a esquelética figura então sai e empurra a porta da sombria sala dos servidores. Trancada. A lembrança de haver, em algum lugar naquele mesmo andar, uma cópia da chave tornava-se nítida a cada passo nos corredores iluminados apenas por luzes fluorescentes de emergência que acendiam-se acionadas pelo sensor de presença.
O ruído do ar condicionado era grande, contrastava com o leve barulho das pantufas calçadas, ele mesmo não acreditava que havia esquecido do fato de estar vestindo-as para trabalhar enquanto em sua sala, não era raro esse fenômeno mneumônico. Johan é conhecido como o maluco da sala escura, pois além de buscar cafezinho na copa quando sua cafeteira pessoal está vazia, vestindo as imensas, amarelas e chamativas pantufas de tigre, trabalha em um 'aquário¹' com a luz desligada - sim, alegando que com as luzes de sua sala desligadas ele consegue enchergar melhor no monitor por causa da menor quantidade de reflexos a coordenação não fez objeções a respeito - o que faz com que os demais funcionários encham-se de curiosidade na tentativa de espreitar o trabalho do administrador, o que resulta em inúmeros sustos, já que ele mesmo gosta de observar as pessoas passando em frente a sua janela e, quando estas param e olham para o interior, tentando enchergar alguma coisa ele acende a luz, aparecendo subitamente na frente do colega bisbilhoteiro.
Ao chegar ao fim do corredor havia uma grande porta de vidro, igualmente trancada. Lá dentro estão as chaves da sala dos servidores. Johan aproxima suas mãos do vidro, aproxima seu rosto na tentativa de enchergar alguma coisa - aperta os olhos -, mas nada. Apenas sombras. Olha ao redor, caminha até uma das luzes de emergência, desconecta-a da tomada, desconecta-a do sensor e a acende.
Então aproxima-se de volta a porta, com a luz tudo parecia fazer mais sentido, o vidro fumê possibilitara pouca visibilidade, mesmo com luz, contudo podia-se observar o claviculário. "Muito bem, hora de chamar o pessoal da limpeza e manutenção, eles tem chaves..". Colocou a lâmpada em seu devido lugar, reconectou o sensor e a rede elétrica, desligou o acionamento manual permitindo apenas o automático.
Caminhou rapidamente em direção ao elevador, que estava subindo ao nono andar. Conhecendo o andar em que o mesmo se encontrava - "Salão de festas" - e a velocidade em que ele se movimentava inferiu que demoraria demasiadamente, logo resolveu descer de escada - A sala da 'zeladoria' encontrava-se no andar abaixo e, se não lhe falha a memória, havia também um claviculário na mesma parede do quadro de serviços.
Já passaram-se quarenta minutos desde que Johan, o administrador, setou o servidor central para ignorar toda e qualquer solicitação de dados proveniente da rede, independente do protocolo. "A essa altura a empresa toda vai me querer em um imenso vidro de conservas, como aqueles aliens na area 51.." - Frases que desta vez não passaram de pensamentos, tão nítidos quanto a imagem da sala de manutenção vazia.
Não havia ninguém trabalhando no setor naquele momento, mas sendo a possibilidade de encontrar sozinho a chave válida, dá-se por início a procura pelo claviculário. Gavetas cheias de papéis, alguns amassados, provavelmente já sem valor algum, peças velhas, arames, fios, cabos e mais cabos, monitores antigos empinhados em um canto, alguuns unidos por silver tape, um armário abarrotado de teclados e mouses antigos, mais centenas de cabos de força, cabos lógicos e, quem sabe, dois kilômetros de cabos de rede.
Todo esse material foi descartado devido ao fato das máquinas adquiridas no início do semestre passado possibilitarem a resolução de mais tarefas de forma coletiva. Cada operador divide a mesma máquina com, pelo menos outro operador com o qual seu serviço está relacionado. Logo há um maior aproveitamento de recursos financeiros e telemáticos.
Os padrões de comunicação entre as máquinas são wireless, o que já torna a necessidade de conectar os cabos de força algo obsoleto. As únicas máquinas wired³ são os servidores entre sí, formando um cluster e o central com a antena emissora utilizando cabos ópticos.
A distribuição de sinal dos access points é feita através do duto do elevador e distribuido com sinal amplificado em cada andar, logicamente com filtros e amplificadores de sinal no subsolo 2, no segundo, no quarto e no oitavo andar.
Não há reclamações de lentidão ou outros problemas, exceto os solucionados pelo helpdesk referentes a configuração das máquinas.
"Quanto lixo amontoado.. Poderia ser feito uma doação para minha entidade carente." - Não, caros leitores, isso não foi um simples murmuro, mas sim uma ressoante exclamação.
Abrindo armários emperrados, gavetas abarrotadas, olhando atrás das cortinas, panos, papéis, e nada do claviculário. "Hummm.. Um mapa." - Johan se abaixa para pegar um esquema impresso do interior da AngryTech, corredores, portas, nomenclaturas, dutos de água, dutos de calefação, sistema elétrico, fosso do elevador, tudo encontrava-se naquela grande e bela planta.
Sem exitar pegou-a, caminhou até a primitiva máquina de xerox e apertou, pelo menos cinco vezes, o botão de cópia. Sim, ele possuia o 'dom do xerocar'.. Sim, ele esperava fazer uma montagem com aquelas impressões e colocar em seu quadro de anotações e recados, quem sabe esquematizar com alfinetes coloridos distinguindo cada setor e cada máquina utilizada, sim, seria uma ótima idéia - "..Como eu não havia pensado em algo tão estúpido assim antes?"
¹: diz-se aquário sala de vidros onde as pessoas que passam conseguem observar seu interior;
²: também conhecido como quadro de chaves;
³: wired - leia-se 'com fios';
Insatisfação pessoal, angústia, raiva, medo, o poder sobre as trevas visto de uma forma mais humana e racional do que pode ser imaginado. A corrupção, o desvio de caráter, todas alterações psicológicas que um ser humano pode sofrer se submetido a pressão, a desmotivação e a humilhação. A simples decadência tomando conta, ou não..
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